Entrevista de agosto: Roberta Lotti

No começo do mês convidei a Roberta Lotti, jornalista brasileira que morou durante oito meses em Angola, para bater um papo com os leitores do blog e contar um pouco da experiência africana dela.

Roberta Lotti (arquivo pessoal)Hoje com 28 anos, ela é autora de um livro-reportagem fotográfico com imagens lindas do país (algumas fotos podem ser vistas no Flickr dela). Ela foi para Angola em 2005, quando os pais estavam vivendo lá (o pai tinha sido convidado a trabalhar no país). Eles voltaram há cerca de dois meses para o Brasil.

Então, inaugurando as entrevistas Em Angola, Roberta Lotti, diretamente de São Paulo, onde ela mora atualmente: diferenças culturais, a experiência em um novo país, as “carteiradas”, as cores, as organizações internacionais, as transformações em Luanda, o coletivo multimídia do qual faz parte e a fascinação.

Em Angola Roberta, bem-vinda ao blog e muito obrigado por participar! Para começar, conte um pouco sobre você e sobre sua relação com Angola.

Oi Gabi, obrigada pelo convite!! Desejo muito sucesso na sua experiência em Angola e estamos aqui para o que precisar, ?

Bem, como começar? Sou paulistana e jornalista de formação, mas atualmente trabalho com educação, no desenvolvimento de cursos de artes. Em 2004 meu pai foi convidado a trabalhar em Angola e, um dia, enquanto jantávamos, ele contou isso pra mim e pra minha mãe.

Lembro que a minha mãe ficou um pouco apavorada com a notícia. Eu, por outro lado, dei a maior força, mas sem saber muito bem onde era esse país… Angola? África. Mas onde exatamente? Eu desconhecia absolutamente tudo a respeito.

Alguns meses depois, meus pais se mudaram definitivamente e eu fiquei em São Paulo, pois ainda tinha um ano de faculdade pela frente. Então surgiu a ideia de produzir meu trabalho de conclusão de curso em Angola, podendo unir o útil ao agradável, visitando meus pais e fazendo um trabalho interessante e diferente.

Desliguei-me do meu estágio e comecei a estudar sobre o país, lendo todo o pouco que havia disponível nas bibliotecas. Fiz uma imersão tão profunda, que quando desembarquei em Luanda pela primeira vez, em junho de 2005, eu sabia mais sobre o país do que meus pais, que estavam lá há quase um ano! Esta primeira viagem durou apenas dois meses. Foi uma viagem de reconhecimento e um grande desafio, pois eu tinha em mente produzir um livro reportagem fotográfico, mas ainda não sabia muito bem que formato ele teria.

EA Ao chegar no país, o que mais te impressionou, para bem e para mal?

Lembro que fiquei paralizada nas primeiras três semanas! Não conseguia tirar fotos e nem escrever uma linha sequer. Parecia que todas as informações estavam sendo armazenadas dentro de mim, para depois nascerem num jorro de palavras cheias de emoção – o que veio a ser depois meu livro.

Eu cheguei no cacimbo, como é chamado o inverno lá, e fiquei bastante impressionada e até angustiada, por vezes, com o céu, que estava constantemente esbranquiçado, como se uma grande camada de névoa encobrisse o grande azul celeste.

As cores ocre da cidade também marcaram meus olhos. Eu esperava encontrar cores vibrantes e me deparei com essa realidade meio pálida, empoeirada. Fui conhecendo pessoas de todo tipo, de ministros e grandes escritores, até a empregada de casa, com quem eu trocava muitas ideias e que me levava pra andar de transporte público nos primeiros dias.

Fiquei impressionada com a facilidade de acesso a pessoas “importantes” e “famosas”: bastava um telefonema e uma referência para marcar uma entrevista ou um encontro – coisa que no Brasil leva bastante tempo e muitas intermediações.

Ao mesmo tempo – e creio que isso venha um pouco da cultura portuguesa – é exigida uma grande formalidade para tratar de assuntos aparentemente corriqueiros… Para tudo é preciso uma carta formal, endereçada ao fulano de tal, com cumprimentos tais, em uma linguagem pouco usual para nós.

Outra coisa bastante estranha é que documentos oficiais, mesmo um papel amassado com um carimbo velho, parecem te salvar de situações bastante constrangedoras com a polícia, que se comporta de maneira muito abusiva.

Para fotografar em espaços públicos, por exemplo, tive que perder uma manhã no “centro de imprensa” e tirar uma permissão oficial. Mesmo assim fui perturbada muitas vezes. Mas logo dava a tal “carteirada” e ficava tudo bem.

Enfim, aprendi que é sempre bom andar com um papel assinado por alguém importante, mesmo que não signifique muita coisa. Ou melhor ainda, andar com pessoas do lugar, o que facilita seu acesso a diversos ambientes.

Costumo dizer que Angola é o lugar onde coisas bizarras acontecem… e realmente são situações muito difíceis de explicar em palavras, só vivendo de perto é que se pode entender o modus vivendi desse povo, suas relações e a importância que dão para determinadas coisas.

A cultura, apesar de ter muitos pontos em comum com a nossa, é muito diferente!

EA Antes de ir para Luanda, qual era a imagem que você tinha do país e da África, como um todo? O que mudou depois?

Não me lembro bem, mas acho que era a imagem clássica estereotipada que todos têm no geral. África, África, África… Falamos e pensamos nesse conceito como se fosse um país único, mas é um grandíssimo continente, formado por 54 países!

Eu acho que o período em que vivi em Angola me permitiu enxergar o país em sua individualidade, apreender os costumes, os valores daquela sociedade, aceitar alguns deles que parecem absurdos, mas são parte daquela cultura.

E consegui também sentir de perto o lado urbano, porque antes meu imaginário era povoado por safaris com leões e zebras. Acho importante ressaltar que as cidades africanas são gigantescos pólos habitacionais. Luanda, por exemplo, tem mais de 4 milhões de habitantes! Então existe esse lado de cultura urbana, moda, hábitos que se modificaram na cidade, lixo… Isso tudo é muito forte.

EA Você conheceu de perto projetos sociais e voluntários do mundo todo. Que impressão ficou desse contato?

Conheci diversos voluntários de organizações internacionais de ajuda humanitária ou cooperação internacional. É uma relação delicada…

A situação lá é realmente de catástrofe, não apenas em Angola, como em muitos outros países africanos – e graças à grande imprensa, que nos bombardeia com essas realidades diariamente, sabemos muito bem disso.

Então isso nos faz parecer que qualquer ajuda é bem vinda (e de fato, é!) Mas os investimentos sociais são tão grandes, é tanto dinheiro rodando entre essas agências de cooperação, orgãos governamentais, ONGs….

Os voluntários e até mesmo funcionários desses órgãos são muito bem intencionados, mas muitas vezes há pessoas que não são… Por isso, os esforços e até mesmo o montante de investimentos acabam não compensando.

O que chega às populações na ponta é muito pouco comparado a todo o aparato montado para que algo nessas realidades se modifique de fato. Os jovens angolanos mais esclarecidos costumavam me dizer que em vez de mandarem ajuda agora, os países ricos deveriam ter pensado melhor antes de fazer o que fizeram aos países da África. Não deixam de ter razão…

EA Como foi sua volta para Angola, depois de concluir o livro?

Depois de dois meses coletando material para o meu trabalho de conclusão (comecei a redigir o livro lá mesmo em um ritmo absolutamente intenso!), voltei para o Brasil em agosto, finalizei o texto, editei o material fotográfico, diagramei o livro e apresentei o trabalho à banca no final de 2005.

Depois de formada, e ainda trabalhando como jornalista, eu estava bastante insatisfeita. Resolvi então voltar para Angola. Minha ideia era reescrever algumas partes do livro, redigir um projeto de mestrado que relacionasse Brasil e Angola de alguma forma, e encontrar um trabalho por lá, para que pudesse ter uma experiência mais efetiva no país e também ficar perto da família.

Assim, em maio de 2006 parti para mais uma jornada de quase sete meses. Essa segunda viagem foi bem diferente da primeira. Meus pais já estavam mais fixados no local, com muitos amigos angolanos, uma vida mais “normal”, digamos, e eu não estava com aquela pressa toda da primeira vez.

Comecei a fazer muitos contatos, retomando também os antigos. Viajei bastante por diversas províncias, estudei muito sobre diáspora para redigir meu projeto em Antropologia Social e consegui, aos poucos, reescrever o livro com mais cuidado.

O que não deu muito certo foi encontrar trabalho… As portas que haviam se aberto para mim na primeira viagem se fecharam logo que eu bati novamente, muito provavelmente porque essas pessoas tiveram acesso ao que eu escrevi no livro e não gostaram do que leram (eu abordei alguns aspectos políticos pouco confortáveis de forma bastante direta e isso pode ter incomodado).

Então, no final, eu acabei tendo um período sabático de estudos e experiências antropológicas, o que foi muito bom exatamente para me permitir sentir com intensidade os aspectos que comentei anteriormente.

EA Que resultados você teve com o livro-reportagem?

A recepção foi ótima, fui incentivada pelos meus professores e examinadores a dar sequência ao projeto e publicar o livro.

Infelizmente, contudo, ele nunca foi publicado por questões burocráticas. Eu cheguei a ganhar um prêmio da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, mas não consegui o restante da verba e não pude publicá-lo.

Já não vejo mais sentido em fazer isso, porque trata-se de um produto bastante perecível, que foi escrito há alguns anos. A realidade de Angola mudou bastante nesse período. Mas foi uma experiência ótima em todos os sentidos e só me trouxe ganhos!!

EA A que mudanças você se refere? O que aconteceu no país em tão pouco tempo?

O país passou por diversas transformações do ponto de vista de infraestrutura. Os chineses entraram com muita força na construção civil. Os brasileiros, na execução de obras públicas, como estradas e pontes.

O visual de Luanda mudou muito, a cidade se ocidentalizou ainda mais. A economia de Angola cresce a taxas exorbitantes. Portanto foram mudanças do ponto de vista material e estético.

É claro que os aspectos culturais e históricos que abordo no livro se mantêm, mas como cito diversas datas, o livro ficou desatualizado.

EA E o projeto tás a ver?, como surgiu? Qual é o seu papel no coletivo multimídia?

O tás a ver? surgiu da cabeça de uma moça muito espivetada, a Juliana Borges! Ela também é jornalista e tem uma história com Angola parecida com a minha.

A Juliana também foi fazer o TCC dela lá como eu, apenas alguns meses antes de mim. Depois, voltou por um período para trabalhar na implantação de um jornal de economia.

Só nos conhecemos no final do ano passado, pois temos um amigo angolano em comum. E os outros integrantes foram se agregando da mesma forma, por termos contatos comuns.

O tás a ver? está sendo uma experiência muito bacana! E está ressoando muito nas pessoas: a ideia nasceu para darmos um pouco de voz a essa África urbana, contemporânea, moderna, vibrante que existe e que ninguém enxerga, porque a mídia insiste em nos mostrar apenas criancinhas catarrentas e barrigudas.

Não pretendemos “encobrir” este lado, todos sabemos que ele existe e que é importante continuarmos nos preocupando com ele. Mas gostaríamos também de evidenciar que há outras realidades nas cidades africanas, muita cultura e arte sendo produzida.

Estamos de vento em popa metidos nesse projeto, e resolvemos não nos limitar apenas a Angola ou a países lusófonos, porque os outros integrantes tiveram experiências em outros países, e também para termos a oportunidade de conhecermos outros lugares.

Não temos papéis definidos no coletivo. Cada um faz um pouco, fazemos tudo meio juntos à medida que temos disponibilidade de tempo. Agora mesmo estamos tocando três projetos e buscamos sempre nos manter alinhados com todas as informações.

EA O que você aconselha para quem pretende viajar para Angola pela primeira vez?

Fazer networking! Procurar pessoas que já tenham estado lá, bons contatos. Fazer uma rede de pessoas que possam te ajudar e te apresentar para outras pessoas interessantes, de preferência locais, já que os estrangeiros costumam se isolar em guetos.

Estar com as pessoas certas faz toda diferença e você começa a conhecer o país pelos olhos dos locais.

EA Se você resolvesse voltar hoje para Angola, o que gostaria de fazer por lá?

Gostaria muito de trabalhar com educação e projetos sócio-culturais. Educação é o ponto fundamental para o desenvolvimento de um povo e acredito que eu poderia contribuir bastante com isso, dando aulas na faculdade de jornalismo, por exemplo.

Mas, por enquanto, a ideia é estar aqui e construir pontes com Angola e com outros países. Não sei o que vai acontecer em relação a mim e à África, mas sinto que é algo muito bom!

Sobre Gabriel Toueg

Jornalista.
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Uma resposta para Entrevista de agosto: Roberta Lotti

  1. TATERA disse:

    Beta, me emocionei com a sua entrevista…eu não sabia de metade da sua história! Muito gostoso ouvir o seu texto, é como você fala.. bjs

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